AS ESTAÇÕES DO ANO

Ano após ano, no dia 21 de junho, eu ouço e leio o repetitivo e burocrático anúncio dos órgãos de imprensa: "O inverno começa hoje". Ora, desde épocas imemoriais convencionou-se que o tempo é dividido em quatro estações meteorológicas de três meses, conforme os raios do Sol incidam perpendicularmente ao equador (o chamado equinócio) ou ao trópico de Câncer ou de Capricórnio (os chamados solstícios) . Quando o Sol está sobre o trópico de Câncer, em torno de 21 de junho, acontece o auge do inverno para nós sulistas (e o auge do verão para os nortistas). Mas isso é o auge, não é o começo do inverno! É quando acontece o dia mais curto e a noite mais longa do ano. Se se quer seguir a convenção milenar, o inverno começa em torno de 7 de maio (45 dias antes do auge) e termina em torno de 5 de agosto (45 dias depois do auge). Isso vale também para a primavera, o verão e o outono, "mutatis mutandis". Ou seja, o verão também não começa em 21 de dezembro, a despeito da imprensa. Ele começa em 6 de novembro, tem seu auge em 21 de dezembro e termina em 4 de fevereiro. Assim como o outono começa em 4 de fevereiro, tem seu auge em 21 de março e termina em 7 de maio. E a primavera começa em 5 de agosto, tem seu auge em 21 de setembro e termina em 6 de novembro.

O movimento de rotação da Terra em torno de seu próprio eixo e o movimento pendular em relação ao Sol assemelham-se ao movimento de um pião, como se vê na ilustração abaixo. A "Posição A" do desenho (21/06) espelha o auge do inverno (e não o início). A "Posição B" do desenho tem dois momentos no ano (07/05 e 05/08), estes, sim, os momentos determinantes do início e do fim do inverno. Confundir auge com início virou moda entre os meteorologistas e jornalistas brasileiros, não sei por que cargas d'água.

Aliás, se o solstício de inverno se dá em 21 de junho e se as autoridades no assunto asseveram que o inverno começa em 21 de junho, entende-se que em 20 de junho ainda não teríamos inverno. E se não temos inverno em 20 de junho, também não teremos em 22 de junho, pois a obliqüidade do Sol, em relação ao equador, é idêntica em 20 e 22. E assim em 19 e 23, 18 e 24 etc. etc. Concluiríamos que o inverno começa e termina em 21 de junho! Não seria espantoso? Algo útil poderemos extrair dessa lição de Astronomia (ou de Meteorologia): A se confirmar que o verão, como o inverno, começa e termina no dia do solstício, o abominável horário de verão (*) passará a ter apenas 1 dia? Aleluia!

Eu iria mais longe nessas considerações, receoso todavia de ser acusado de pretender instalar a confusão. Eis que as regras acima aplicam-se convenientemente às latitudes superiores ao extremo norte da América do Sul e inferiores ao extremo sul do Acre. Entretanto, na faixa equatorial, haveria de se instituir tabela trimestral diferenciada. Com efeito, vê-se, pelo esquema, que essa faixa não tem, a rigor, o que se convencionou chamar de inverno. Ela teria um regime de verão-outono-verão-primavera: verão de 5 de agosto a 6 de novembro, outono de 6 de novembro a 4 de fevereiro, verão de 4 de fevereiro a 7 de maio e primavera de 7 de maio a 5 de agosto. Isso para os equatorianos do hemisfério Sul; para os do hemisfério Norte, invertem-se primavera e outono. Idêntico critério se aplicaria à Bacia do Congo, na África, à Malásia e à Indonésia.

(*) No Brasil, a data de início e de término do horário de verão sempre foi aleatória. Somente a partir de 2008, decreto presidencial (6.558 de 08/09/2008) determinou que "...em todos os anos a mudança no horário ocorrerá à zero hora do terceiro domingo de outubro e terminará à zero hora do terceiro domingo de fevereiro. Se a data coincidir com o domingo de Carnaval, o final do horário de verão é transferido para o próximo domingo." – o horário de verão limita-se às regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do país. Assim, enquanto persistir a bovinice do cidadão brasileiro, seremos submetidos a esse racionamento insano de energia, espertamente travestido de medida racionalizadora, tudo porque é mais cômodo para o governo impor essa agressão ao nosso "relógio" biológico do que adotar medidas inteligentes e corretas no âmbito do Ministério de Minas e Energia.

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© 21/06/2007 Atualizada em 24/06/2012